terça-feira, 11 de maio de 2010

Entre a cruz e a espada

O convívio pacífico entre os números e o crescimento econômico tem prazo de validade no Brasil. Na maioria das vezes, ao invés de criar alternativas que garantam a estabilidade das taxas de inflação sem afetar o desenvolvimento do país e a geração de emprego e renda, o governo federal acaba optando pela medida mais comum do dicionário economês: o aumento da taxa básica de juros, a Selic. E foi o que aconteceu mais uma vez no final do mês passado.
É como se anunciasse: aqui é proibido crescer. Mesmo diante do forte ritmo da economia, o Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central (BC) adotou a elevação da Selic para frear a pressão sobre a inflação e, indiretamente, para se preparar contra os efeitos da crise fiscal européia, que já atinge Portugal, Espanha e Grécia. O comitê assegura que é preciso conter as pressões inflacionárias para garantir que a elevação dos preços em 2010 não ultrapasse a meta de 4,5%.
Desta vez, a alta foi de 0,75% ponto percentual, quando o esperado era 0,5%. A última vez que o BC elevara a Selic tinha sido em setembro de 2008, de 13% para 13,25%, patamar que começou a ser reduzido em janeiro do ano passado, no auge da crise internacional. Em julho de 2009, a taxa atingiu seu piso histórico de 8,75%, tendo perdurado até agora. Ou seja, o prazo de validade entre números e crescimento durou 19 meses.
Agora, com a Selic a 9,5% ao ano, o Brasil volta a ter a maior taxa básica do planeta. Não há dúvidas de que a medida é impopular, mas beneficiará banqueiros e empresários que vivem da especulação do mercado. O aperto ao novo ciclo monetário do país, contudo, ocorre no momento em que o governo sofre uma derrota no Congresso na discussão sobre o reajuste dos aposentados que ganham acima do salário mínimo.
O debate acontece no âmbito da Medida Provisória 475. Ela reajustou os benefícios dos aposentados em 6,14%, em 1º janeiro. Mas as pressões das centrais sindicais e de alguns parlamentares elevaram o percentual a 7,7%. O governo, por sua vez, tinha anunciado que fecharia questão em 7%, que seria a reposição da inflação mais 67,25% da variação do PIB de 2008 – lembro que a MP 475 concede a inflação e mais um ganho real de 50% do PIB de 2008. Já os 7,7%, representaria a reposição da inflação mais 80% do PIB de 2008.
Em tese, para não conceder o aumento das entidades de classe, o governo alega que o custo adicional desse pagamento seria de R$ 1,7 bilhão. Para reduzir o impacto, então, foi estipulado os 7%, que reduziria o custo a R$ 1,1 bilhão. No total, os gastos extras seriam da ordem de R$ 4 bilhões ao ano. Com o aumento da Selic, no entanto, estima-se que as metas anti-inflacionárias custariam R$ 5 bilhões aos cofres públicos. Com isso, os argumentos do governo caem por terra.
O efeito disso já pode ser sentido na votação da Câmara dos Deputados, que aprovou os 7,7%. A MP agora segue para o Senado, onde tudo indica que a medida também será aprovada. O próprio presidente Lula entrou pessoalmente nas negociações, mas, como se viu, sem grande sucesso.
A alternativa agora é conversar com os senadores. Mas qual seria o argumento? O que o governo quer, na verdade, é evitar o desgaste eleitoral que representaria o veto presidencial. Não foi à toa que o presidente Lula, não tendo o que falar, declarou que aguardará a votação do Senado.
Mas ainda que o Copom alegue que a decisão de aumentar a Selic seja técnica, essa não é a única forma de conter a inflação. Economistas e empresários sérios dizem que a melhor alternativa para evitar as pressões exercidas pelo consumo está no aumento da oferta. Para eles, com investimento na produção e crescimento econômico é possível superar os riscos inflacionários.
Fala-se muito que o país vive o ciclo do “voo da galinha”. Isto significa dizer que após um pequeno período de crescimento, são tomadas medidas para contê-las em nome do combate à inflação. Assim, o país fica praticamente impedido de ampliar sua economia e a população, condenada a não aumentar o consumo.
O governo está literalmente entre a cruz e a espada. Será preciso muito jogo de cintura para driblar mais essa. Vale ressaltar que objetivo de uma boa política econômica é garantir o desenvolvimento e a melhoria na qualidade de vida. E não se faz isso aumentando juros e tentando negar reajustes a aposentados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário