sábado, 8 de maio de 2010

O prenúncio da demagogia e da ação climática

Nasce da demagogia, do populismo e da permissividade dos administradores públicos o drama dos parentes das vítimas dos deslizamentos de Angra dos Reis, onde mais de 50 pessoas morreram na madrugada do dia 1º de janeiro de 2010. Digo isso porque não é novidade que são vedadas construções em encostas, áreas mais altas, zonas de Marinha e de influência das marés. Entretanto, se elas ainda ocorrerem é por pura leniência do poder público com os setores mais abastados da sociedade. O mais preocupante, contudo, é que a tolerância para com as construções irregulares e a ocupação desordenada não é um "privilégio" da Costa Verde, mas de todo o estado. Ou seja, são tragédias anunciadas – quem sabe – ainda para este ano. Muitas vezes o mau uso do solo é incentivado pela própria administração pública, interessada em ganhos políticos. Porém, quando o pior acontece muda-se o discurso e fala-se em revisões de zoneamento e alterações de decretos que nunca deveriam ter saído do papel.Mas vale ressaltar, todavia, que não é só isso que está em jogo. Fora a permissividade, o comprometimento e o descaso dos governos na busca de soluções para o problema, é preciso chamar atenção para as mudanças climáticas, já que elas também contribuem de forma significativa para tragédias como as de Angra dos Reis. A triste constatação é que esses relatos se tornam mais frequentes justamente quando o mundo diverge sobre as ações que devem ser tomadas para reduzir o efeito estufa.O efeito estufa, como todos sabem, produz aquecimento global, cujo efeito se faz sentir a partir da emissão de gases poluentes que são lançados na atmosfera. O resultado é alteração do clima e as constantes tragédias que vem ocorrendo no mundo por conta da força da natureza. Estou a par da situação, porque integrei a delegação oficial brasileira que esteve em Copenhague, na Dinamarca, em outubro do ano passado, para a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-15.Estive na conferência, na condição de presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados. Portanto, interessado em fomentar e incrementar a discussão sobre a produção e a criação de novas fontes de energia renováveis, ou seja, menos poluentes e, em consequência, menos maléficas ao meio ambiente. Mas diante do fracasso do encontro, restou-me a lamentação e a indignação. Em protesto, me desliguei da delegação oficial e voltei antes do programado. Como cidadão, preocupado com o aquecimento global e seus efeitos nocivos, fico ansioso para saber o que será do nosso futuro. Alguns especialistas apostam suas fichas na COP-16, que será realizada em 2010, no México. Mas não sei se o tempo é suficiente para que os principais líderes mundiais mudem de posição em relação às obrigações de cada um nessa luta. Atesto isso porque a agenda que estava em pauta na COP-15 foi fruto de uma negociação de pelo menos dois anos antes. Mas fracassou.Foi decepcionante. Na reta final do evento, pontos como o limite do aumento das temperaturas, das metas de redução das emissões, dos mecanismos de verificação de reduções nos países emergentes e o financiamento, ainda estavam em aberto. Era o prenuncio de que nada iria avançar. Considero que o financiamento a longo prazo é fundamental para se chegar aos índices desejados de redução de CO2, além das metas vinculadas. O Brasil apresentou voluntariamente índices de redução que variam entre 37% a 39%. Isso já virou lei. A matriz energética brasileira, é sempre bom frisar, é uma das mais limpas do mundo, o que já é um dado positivo em se tratando de redução de emissão de poluentes. Algo em torno de 45% da oferta interna de energia do país vem de fontes renováveis, valor bem superior a dos países desenvolvidos, onde a média é de apenas 6%.Apesar das medidas brasileiras serem positivas, o enfrentamento da situação não pode partir de ações isoladas. Enquanto os países industrializados não chegarem a um consenso sobre as medidas a serem tomadas para reduzir a emissão de poluentes, e os nossos governantes, muitos deles oportunistas, permaneceram acéfalos e autorizativos diante da força da natureza, calamidades como as que ocorreram em Angra dos Reis ainda serão noticiadas durante muito tempo.


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