segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Havia muita fumaça no ar !!!


Quando fui eleito deputado federal pela primeira vez não podia imaginar que nos anos seguintes a tônica da República seria um esquema de corrupção violento, aparentemente elaborado pelo núcleo do poder constituído, onde havia pagamento de propina a parlamentares em troca de apoio ao governo no Congresso. Se alguém, antes da exposição dos acontecimentos, sugerisse que aquilo estaria acontecendo certamente seria execrado em praça pública, afinal de contas o governo recém empossado era o do PT, que por anos a fio tentou chegar ao poder central do país, se valendo de articulações políticas e de posturas denuncistas para combater aquilo que julgava errado na República, sobretudo aquilo que eles diziam que era corrupção.  

O movimento guerrilheiro no Brasil começou tarde e fora dos padrões das guerrilhas na América Latina. Vários argumentos foram usados para justificar a falência desse movimento no Brasil, entretanto, um deles, o de que seria muito difícil ganhar o poder pelas armas sem dinheiro para financiar a intentada, pode ter ficado marcado na memória de muitos daqueles jovens que queriam acabar com a ditadura militar. Passado o tempo e instalada a democracia, chegou o tempo daqueles que se dispuseram a pegar em armas para salvar a nação de entrar pela porta da frente no poder. Porém, os fantasmas do passado talvez continuassem a cerca-los e, provavelmente, uma das preocupações era não permitir que o inimigo pudesse tirar a condição finalmente conquistada. Contudo, não estávamos mais nos anos de chumbo e sim vivendo a plenitude da democracia. O teatro de batalha era outro e a forma de se combater os adversários também. Porém, aquele gosto amargo da derrota pode ter levado alguns  dos ex guerrilheiros, que chegaram ao poder pelo voto, a crer que a melhor estratégia seria garantir uma base ampla de votação no Congresso através da cooptação de parlamentares em troca de dinheiro. Eu vivenciei aquilo, respirei aquele ar e mesmo sem  participar e sem imaginar o que estava acontecendo, acabei vendo de perto performances duvidosas de parlamentares que deveriam estar ali para defender os interesses do povo brasileiro e a plenitude da democracia.

O José Dirceu, que era meu colega deputado, mas estava nomeado Ministro Chefe da Casa Civil, era o manda chuva do governo Lula. Nada acontecia sem seu conhecimento e sem sua autorização. Ele era forte mesmo e tinha total confiança do Presidente. Digo isso porque participei de várias reuniões onde essa postura era cristalina e na maioria das vezes quem definia tudo era ele. Não era raro vê-lo tratando mal alguns parlamentares e vê-lo circulando com aquele ar prepotente que passou a ter. Muitas vezes ouvia conversas que suas atitudes não iriam dar bons resultados para o governo, mas eu não alcançava as razões daqueles comentários, pois quem os faziam tinham mais vivência do que eu no Congresso Nacional. Havia muita fumaça no ar !!! 

Quando o Deputado Roberto Jefferson delatou o “Mensalão”, tudo fez sentido, as peças passaram a se encaixar. O próximo passo foi caçar, num julgamento político, o mandato do José Dirceu, que foi apontado como cabeça pensante do esquema, e desvendar tudo aquilo que ficou conhecido como “Mensalão”. Hoje, o julgamento da ação penal 470 já começou no STF e 38 pessoas estão sendo acusadas de participarem do esquema de compra de votos para beneficiar o governo naquele momento. A peça acusatória, lida por cinco horas na semana passada, é contundente e detalhista. Na visão do Ministério Público, o ex-ministro teria estabelecido, ao lado de correligionários, "um engenhoso esquema de desvio de recursos de órgãos públicos e de empresas estatais" e "o objetivo era negociar apoio político ao governo no Congresso Nacional, pagar dívidas pretéritas, custear gastos de campanha e outras despesas do PT". A opinião pública parece desejar a condenação dos réus, entretanto, como o julgamento é técnico e os advogados de defesa são os melhores do Brasil, muita coisa pode acontecer. Aquele que já é conhecido como o maior julgamento da história do STF poderá ser um divisor de águas em nossa história e servir de fato como elemento para consolidar nossa democracia. Quem for culpado por esse escândalo que pague na letra da lei. Vamos aguardar, acompanhar e torcer por justiça, pois o Brasil merece. 

Bernardo Ariston

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