sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O que aconteceu com a nossa Saint-Tropez?

 O “Sol Seguro” foi, talvez, o mais inovador produto que o turismo de Cabo Frio criou em três décadas.  A iniciativa foi lançada nos anos 1980 pela Soltour, empresa de turismo criada pelos hoteleiros, e reunia os hotéis Malibú, Acapulco, Caribe, Helena, Porto Peró, Porto Veleiro e Marissol. O “Seguro”, que tinha validade de 1º de maio a 30 de novembro, garantia a devolução da diária aos hóspedes que tinham pacote mínimo de três dias fechado com,  pelo menos, uma semana de antecedência, caso chovesse durante cinco minutos seguidos, ente 9 e 15 horas. A aposta parecia ousada, mas se baseava em números que afastavam qualquer possibilidade de prejuízo.
Cabo Frio, além das belezas naturais exuberantes, águas transparentes, areia fina e branca e cenários cinematográficos, tem o menor índice pluviométrico do Estado do Rio. Temos 283 dias de sol, em média, no ano. Paris tem 143. Roma, 195. Amsterdã tem 105. O Rio tem 212 e Fortaleza, acredite se quiser, 239. O que, infelizmente, não temos é uma política de turismo que nos aponte um norte, uma direção, um caminho para seguir capaz de transformar todo esse potencial em desenvolvimento, empregos e riqueza.
A visão tacanha e a incompetência dos prefeitos que governaram o município, e o atual, infelizmente, não foge a regra, só geraram destruição, favelização e a ocupação desordenada da cidade que um dia foi comparada a Sain-Tropez e já inspirou poetas, músicos, pintores e escritores, menos nossos políticos. A identidade arquitetônica da cidade foi destruída com a demolição dos casarões antigos; as tradições cabo-frienses se perderam com o tempo e a praia do Forte, nosso principal cartão-postal, se transformou numa grande feira a céu aberto onde se compra e se vende de tudo, até um lugar ao sol.
Turismo é a indústria da felicidade. Quem viaja quer esquecer os problemas e ser feliz, mas para servir felicidade é preciso também ser feliz, ter orgulho da cidade. O cabo-friense não tem tido muitos motivos para se orgulhar. Ninguém pode ser feliz, muito menos servir felicidade, sendo obrigado, por exemplo, a passar a noite ao relento, numa fila, para conseguir atendimento médico. Sem qualidade de vida, emprego e segurança felicidade é uma utopia.

Qualidade é a melhor estratégia para assegurar a competitividade do turismo brasileiro, por isso, quando fui Deputado Federal apresentei o Projeto-de-Lei número 2.706/2003,   transformado na Lei n° 11.637, de 28 de Dezembro de 2007, que instituiu o Selo de Qualidade Nacional de Turismo no Brasil, cujo objetivo é  melhorar e definir os padrões de qualidade dos nossos serviços e engajar a todos no processo, porque todos nós somos responsáveis, individualmente, pela qualidade da estadia do turista no País, no Estado ou no município, desde o empresário dono do hotel até a vendedora de biquínis do Shopping Gamboa, o guarda municipal ou o garçom do restaurante do Boulevard Canal.
Números de 2017 do Ministério do Turismo, mostram que o setor foi responsável pela injeção de 163 bilhões de dólares no Brasil, o equivalente a 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano. O turismo, segundo estimativas, gerou 8 milhões de empregos ano passado.  Cabo Frio precisa, urgentemente, de uma política de turismo séria, elaborada em conjunto com empresários do trade, que crie áreas de interesse turístico com normas rígidas para preservar o que ainda nos resta, porque aqui o sol é seguro e, apesar de tudo, vai sempre brilhar o ano todo.
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Em tempo: Estava em frente a TV zapeando e reconheço Cabo Frio numa novela. A cidade, desde “Sheik de Agadir” (1966) é cenário de produções da TV e do cinema. Lembro “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra, com Jece Valão, Daniel Filho e Norma Bengell, que protagonizou, na paia do Forte, o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, inaugurando o Cinema Novo.
O filme, em preto e branco, mostra as salinas da Avenida Henrique Terra, o Cine Recreio, a Praia do Forte e a Avenida Jonas Garcia, ainda de terra batida, com seus prédio antigos. O passeio dos personagens pela cidade termina com uma constatação: “É a nossa Saint-Tropez”.
Eu, Janaína e João, dia desses, num despretensioso passeio de carro pela cidade no fim de tarde, fizemos o mesmo roteiro mostrado no filme e uma pergunta não saiu da minha cabeça:  o que aconteceu com a nossa Saint-Tropez?

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