sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Royalties: bênção ou maldição?

O jornalista, fundador da Folha dos Lagos, Moacir Cabral, era correspondente do jornal O Globo na região, na década de 80, e testemunhou para o diário carioca, a primeira das muitas farras que os royalties do petróleo iriam bancar nas décadas seguintes, administrados por prefeitos irresponsáveis e incompetentes que queimaram dinheiro público numa grande fogueira de vaidades e conseguiram - com a cumplicidade  todos os vereadores que passaram pela Câmara - atirar o município na maior crise econômica de sua História.

 Era junho de 1987. Cabo Frio tinha acabado de perder Arraial do Cabo e, consequentemente, 60% da arrecadação proveniente da  Companhia Nacional de Álcalis, que empregava dois mil trabalhadores e produzia 200 mil toneladas/ano de barrilha, utilizada na indústria de vidro.  O orçamento cabo-friense, que girava em tono de 10 milhões de Cruzeiros  - a moeda da época - estava seriamente comprometido mas, naquele mês, a cidade conseguia entrar para o seleto grupo de municípios produtores de petróleo que tinha direito aos royalties.

A crise virou festa e a festa virou gastança, como se não houvesse amanhã.  Alair Corrêa decretou ponto facultativo e reuniu, num dia daquele mês de junho, os 3 mil funcionários da prefeitura no estádio que leva o nome dele, o Correão, para comemorar o início da era do petróleo. O prefeito anunciou, na festa, idealizada por ele, e que custou 200 mil aos cofres públicos, segundo a matéria de Cabral para O Globo, um aumento de 100% para o funcionalismo e, também, abono de 2 mil cruzeiros. E mais:  distribuiu geladeiras, bicicletas, TV, fogão, liquidificadores, panela de pressão e até ventiladores.

Alair inaugurava, sob os holofotes da grande imprensa, não apenas a era do petróleo, mas a era da gastança, dos shows, das portarias, uma política nefasta que seria seguida por todos os seus sucessores e, novamente, por ele, nas três vezes que retornou, depois, à prefeitura para queimar dinheiro como quem queima combustível.

A gastança acabou, assim como os shows milionários, os sorteios, os abonos e as obras faraônicas que não geraram, nas últimas três décadas, nenhum desenvolvimento, pelo contrário. Não há mais dinheiro para queimar. Queimamos tudo com shows, com festas, com escolas de samba, com bravatas, agora falta para a Saúde, para a Educação, para os servidores.

Os ventiladores de Alair custaram caro. Estamos pagando ainda hoje, basta olhar em volta, as ruas esburacadas, os salários atrasados, a saúde destruída. Os milhões que entraram nos cofres do município   não contribuíram para construir o futuro, apenas para eternizar no poder grupos que destruíram não só a cidade, mas a autoestima do cabo-friense, sua história, suas tradições. A cidade perdeu a oportunidade de investir com inteligência, de criar um fundo para futuro de elaborar um plano diretor que projetasse um crescimento sustentável, preservando o Meio Ambiente, garantindo qualidade de vida  e não permitindo o crescimento desordenado que transformou a cidade numa praia cercada de favelas.

O problema de Cabo Frio não é dinheiro. A Saúde do município, por exemplo, recebeu ano passado do Fundo Nacional de Saúde R$ 74,7 milhões.  Mesmo assim faltam remédios e vacinas nos postos. A população tem que dormir, ao relento, na calçada da Central de Marcação de Consultas, no Jardim Esperança, em busca de uma ficha para uma consulta médica. Os royalties poderiam ter sido uma bênção para todos, mas se transformaram numa maldição.

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